Oportunidades e desafios na terapia com células-tronco mesenquimais do cordão umbilical para tratamento regenerativo da artrite reumatoide (AR)
Sobre a artrite reumatoide
A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune inflamatória sistêmica crônica que envolve principalmente as articulações.
Ela ocorre em aproximadamente 1% da população, porém esse percentual aumenta para 4,5% se considerarmos indivíduos entre 55 e 75 anos de idade. A AR tem predomínio três vezes mais frequente nas mulheres.

Tratamentos atuais
Até o momento, o tratamento tradicional da AR envolve o controle da dor e redução da inflamação local com medicamentos, sem efeito curativo. Nos últimos anos, medicamentos modificadores da resposta biológica foram também incorporados na tentativa de reduzir a resposta inflamatória pela depleção de células B e do bloqueio da cascata de citocinas inflamatórias. Entretanto, muitos pacientes são intolerantes e refratários a essas terapias, o que faz com que a medicina explore opções de tratamento mais eficazes e seguras.

A opção de tratamento com células-tronco mesenquimais
As células-tronco mesenquimais (CTMs) são derivadas de células-tronco pluripotentes da mesoderme e possuem as seguintes características:
- Alto grau de autorrenovação e diferenciação.
- Podem se diferenciar em osteoblastos, células adiposas, células musculares entre outras.
- Capazes de modular o processo inflamatório e promover a reparação vascular.
- Encontradas em uma variedade de tecidos humanos.
Baseando-se nessas características biológicas, muitas pesquisas utilizam as CTMs para tratar doenças autoimunes, como a AR para:
- Reduzir a inflamação e retardar o desenvolvimento da doença.
- Desempenhar funções imunomoduladoras, regulando a expressão de citocinas pelas células T, células B, células dendríticas e células natural killer (NK).
- Intervir na base patológica da inflamação.
CTMs do cordão umbilical x outros tipos
Na pesquisa clínica, os principais tipos de CTMs utilizadas são as derivadas da medula óssea (CTMs-MO), de cordão umbilical (CTMs-CU) e do tecido adiposo (CTMs-TA). Quando comparamos os três tipos de fonte, destacam-se algumas vantagens relacionadas às CTMs-CU:
- Maior possibilidade de compatibilidade entre doador e receptor.
- Células mais imaturas.
- Não foram expostas a fatores externos.
- Coleta é simples, indolor e não apresenta qualquer risco ao bebê ou à mãe.

Ensaios clínicos com CTMs para tratar artrite reumatoide
Diversos ensaios clínicos em pacientes com AR já foram realizados e muitos ainda estão em andamento. Nesses estudos, as fontes de CTMs mais utilizadas foram de medula óssea e cordão umbilical devido ao maior número de células disponíveis. Abaixo um breve resumo dos resultados até o momento:
- Todos demonstraram segurança nas infusões, independente do volume de células e do número de infusões realizadas.
- Foi comprovado que a utilização de CTMs-CU promove regulação da resposta imune, redução da resposta inflamatória (diminuição de citocinas) e reparação de lesões. (Comprovação pela coleta seriada de exames laboratoriais específicos : ACR20, ACR70, C3, C4, TNF alfa, IL-1, IL-4, IL-6, IL-8, IL-10, sorologia para AR entre outros).
- Foi relatada a melhora dos sintomas de dor e da mobilidade.
Conclusão
As CTMs surgiram como uma alternativa promissora no tratamento de AR. Essas células estão de certa forma amplamente disponíveis, têm baixas respostas imunogênicas, podem ser expandidas e criopreservadas. Suas propriedades de modulação da resposta imune, autorrenovação e regeneração de tecidos são amplamente conhecidas e comprovadas. Mais estudos são necessários para definir qual o momento apropriado para a utilização dessa terapia, o número de infusões e o volume celular a ser utilizado, porém os resultados atuais são animadores e estimulam as próximas fases das pesquisas que estão em andamento.
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